sábado, 27 de junho de 2015

Day 2 - 1ª dia na escola, 1ª ida à cidade

Primeiro dia de trabalho. As expetativas não existiam simplesmente. Só queria ir para lá, ver o que vou fazer, perceber onde posso ter impacto. Só me disseram "não leves calções e não leves nada valios, as favelas não são propriamente seguras".
Lá vou eu, no Matatu (mini-autocarros, mas um dia destes falo mais disto). Quando chegamos à paragem, nota-se a pobreza, aquele aperto no peito de que finalmente estás a perceber a realidade que existe aqui e a razão pela qual estou aqui.
A chegada à escola foi inexplicável. Não sei mesmo descrever o que senti. As crianças simplesmente a correrem a tua volta, a tentar tocar-te, dizer "olá", outros só olhavam simplesmente. Conhecemos a professora da escola que é muito simpática (já estamos convidados para o casamento da filha), outros professores, visitamos a escola.
Agora vamos a número: 1 escola, mais de 1000 crianças, 26 professores, 1 cozinheira. A maioria das crianças são muito pobres, pode ver-se nas roupas deles, alguns andam com o uniforme muito estragado, outros descalços e aí percebi o quão sortuda e privilegiada sou por ter uma casa, refeições, acesso a educação e saúde.
As aulas correram bem. O que acontece basicamente é que damos 3 horas de aulas a três turmas diferentes divididas por idades. Cada um de nós está encarregue de um grupo de crianças e trabalhamos com eles. Numa só manhã tive um miúdo no grupo que não sabe ler, tenta fazer de conta que sabe para não gozarem com ele mas não sabe. É um sentimento de impotência face a este tipo de situações que nem consigo explicar. Outra miúda era tão envergonhada que estava quase a chorar porque não queria ir ao quadro... O que acontece é que alguns gozam por isso sentem-se reprimidos e nunca chegam realmente a aprender. Outros adoram mostrar que sabem. Mostrar que sabem ler, orgulham-se em ir ao quadro e orgulham-se em ser o melhor. É um bocado disto que falta em Portugal
Depois das aulas começou a sessão de fotografias. Eu perguntei a duas miúdas se podia tirar uma fotografia e de repente é 50 crianças a gritar "Professora, podemos tirar uma foto consigo?". E lá estivemos nós mais de 30 minutos só a falar com eles e a tirar fotografias. Todos querem saber que idade tenho, de onde sou, algumas perguntavam qual era o meu animal preferido, outros querem mostrar no globo onde fica Portugal e provar que sabem... A simplicidade deles e humildade deles é algo que só visto e só se percebe depois de estar com eles. É uma sentimento incrível estar com aquelas crianças cheias de vida e de vontade de estar ali. É o que faz falta às crianças do nosso país. Vontade de aprender e de estar na escola. Vontade de ser o melhor.
De tarde, fui pela primeira vez à cidade e acreditem, é quase assustador. Ser o Muzungo, o "branco" não é algo fácil. Muitos olhos em cima de ti, muita insegurança dentro de ti mas que nunca podes mostrar pois quanto menos o mostrares, menos probabilidade tens de te acontecer alguma coisa. Em qualquer lado que vá, as pessoas falam comigo, só porque sim. Começam a pedir, tentam vender algo porque normalmente os muzungos são os ricos, os turistas.
A verdade é que finalmente começo a perceber do que se queixam as pessoas de cor em países de brancos. É como se tivesses sempre uma certa pressão em ti: as pessoas olham para ti, alguns comentam, outros metem-se contigo, mas claramente, és tratado de maneira diferente.
Acho que já me estou alongar demasiado por isso vou ficar por aqui.





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