sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Obrigada Quénia.

Quando decidi que ia para o Quénia nunca achei que me ia trazer tanto. Ou então tinha medo que me trouxesse tanto... Quando me perguntavam qual era o meu maior receio, eu respondia que era gostar demasiado daquilo e acabou mesmo por acontecer.
Se estava nervosa no início, garanto que durou cerca de 3 dias. Quem esteve lá comigo sabe que uma semana antes de me ir embora já estava com os nervos a flor da pele. 3 dias antes de ir embora não consiguia respirar, nem fome tinha, tinha um aperto gigante no peito que não me deixava. Dava por mim sozinha a chorar enquanto refletia sobre o meu tempo lá.
O mais engraçado é que se me perguntarem se gostei de Nairobi, eu respondo muito rapidamente que não. A corrupção a todos os níveis, a poluição que me fazia ter dores de cabeça todos os dias, o trânsito agressivo que dava cabo da cabeça a qualquer um, a pobreza, o lixo a ser queimado em todos os cantos, o cinzento... Aquela cidade é aquele tipo de sítio em que ninguém gostaria de viver.
Mas depois pergunto-me eu própria: como é que é possível ser tão feliz num sítio tão desagradável? É estranho mas a verdade é que não me lembro de ter sido tão feliz em toda à minha vida como fui lá. Aquelas crianças ajudaram muito em que isso acontecesse, é verdade. É uma imagem que penso que me vai acompanhar sempre, aqueles miúdos são uma lição de vida ambulante. A maneira como encaram a vida é magnífica, e damos por nós a queixar-nos constantemente de futilidades (contra mim falo claro). As pessoas com quem partilhei aquela experiência também. Conheci pessoas fantásticas. Desde os meus mosqueteiros, à minha Marianinha, a Laura, aos chineses, aos europeus, aos brazucas, a toooodos sem exepção, todos eles marcaram a minha experiência provavelmente sem terem noção disso.
Mas de tudo isto, acho que o que vou ter mais saudades é de acordar de manhã e sentir "hoje vou fazer algo que realmente amo e me faz genuinamente feliz"... É uma sensação de que muitos falam, mas sentir isso todos os dias... não tenho palavras para o descrever. É uma sensação de privilégio, de felicidade pura que nem todos têm a oportunidade de sentir na vida e eu tive essa sorte, durante 7 semanas! Só me mostrou que isto me faz feliz, e ofereceu-me uma das respostas que eu procurava com esta experiência: "O que quero fazer depois da licenciatura?". Está aí, quero ajudar pessoas. Quero resolver problemas, quero melhorar o dia de alguém... mais do que querer, preciso! Preciso porque sinto que é uma das razões para que estou aqui, e se sou tão feliz a ajudar os outros porque não fazê-lo?
Apesar desta felicidade fica também um sentimento de frustração, de deixar muita coisa por fazer, muito por resolver, por corrigir... 7 semanas sabe a pouco, muito pouco. É difícil explicar por palavras o que esta experiência foi. Todos nós sabemos que há pobreza no mundo, que há favelas, que há gente a morrer todos os dias, mas o facto de estar lá, é algo que não se consegue apagar... São problemas com os quais deixas de conseguir conviver tão facilmente! Não se consegue mais ser indiferente. E quando conto o que vi às pessoas, as reações são "ai, é uma miséria" mas passado 10 minutos eles seguem com a sua vidinha, mas para mim é difícil. Sempre que olho para um miúdo a fazer birra, para um prato com comida, para um livro, para tudo, tudo me remete para aquele sítio e para aqueles problemas. Mais do que nunca também me sinto agradecida pela vida maravilhosa que tive, cada vez mais me sinto uma privilegiada. 
Esta experiência trouxe-me muito, mas mais do que tudo trouxe-me um começo. Finalmente descobri o meu lugar, o que me faz feliz, e uma vez que isso acontece, é impossível de se ignorar... Só há um caminho a seguir e o meu caminho é este.

Day 47 and 48

Sim, atrasei-me a postar desta vez. Provavelmente porque é o posto mais difícil que tive de fazer em toda esta viagem. Mas deixemos as reflexões para outro post.
Passei o dia em casa, a refletir sobre tudo aquilo que fiz lá, algumas lágrimas envolvidas, muitos sorrisos parvos também, mas muito receio de voltar. Aproveitei para adiantar algum trabalho e fazer a mala, custou-me imenso, parece que foi quando me bateu tudo, que ia voltar a casa no dia seguinte...
Felizmente chegou a tarde e fomos todos ao cinema ver um filme, comer umas pipocas e depois jantar juntos. Foi uma boa despedida, simples, mas com aquelas pessoas incríveis...
Veio a primeira despedida, O Mahmoud não mora na minha casa, por isso lá foram as primeiras lágrimas... Ao regressar a casa o mais incríveis aconteceu. Eu decidi não dormir porque não valia a pena, mas achei que fosse ficar acordada só com a Mariana como companhia mas as horas iam passando, e todos estavam comigo na sala e é quando percebi... Percebi que é muito fácil deixar alguém marcar-te e perceberes quem te marca, mas quando vais para uma aventura destas, também deixas a tua marca naquelas pessoas... A verdade é que ninguém tinha feito isto por outra pessoa, mas lá estávamos todos, às 4:00 da manhã a ver videos estúpidos na net, como se nada fosse, quando a maioria deles tinha de acordar dali a duas horas para ir trabalhar!
As despedidas começaram a vir, tentei não chorar, sabia que ia ser difícil, tirei um tempinho para lhes escrever umas coisinhas, coisas que não sou muito boa a dizer na cara, mas que todos eles mereciam ouvir por ter tornado o meu tempo naquela casa tão incrível.
A despedida da Mariana foi a pior, como era de prever... Choramos imensos, mesmo sabendo que estamos no mesmo país, mas acho que sentimos que esta aventura fez sentido juntas, e sei que fiz ali uma irmã para a vida. Partilham-se coisas que não acontecem no dia-a-dia normal lá, daí ficarmos tão próximos uns dos outros em tão pouco tempo... (pareço uma concorrente da casa dos segredos)
Finalmente apanhei o avião, dormi o tempo todo o que é bom, em Amesterdão apanhei um grupo de escuteiros barulhento mas pronto, não os deixei incomodar-me e dormir outra vez. Cheguei a Portugal à volta das 23:00 e fui diretamente para casa dormir mas este regresso está a ser estranho. Mas fica para o próximo post.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Day 44, 45, 46

Desculpem a ausência mas claro que tinha de ter um problema técnico agora que isto está a acabar e não consigo aceder à internet com o meu computador.
Estes dias têm sido emocionalmente duros, acho que ainda não caí em mim em relação à minha partida. Sinto que ainda há tanto por fazer, tanto por mudar e 7 semanas não é mesmo suficiente para ter o impacto de que tanto se falta.
Na sexta-feira fui à minha escola, pelo última vez, e encontrei um pequeno grupo de miúdos, sendo que muitos já estão de férias... Tivemos a conversar, comemos umas bolachas e pipocas, dei-lhes uns autocolantes e uns cadernos com uma pequena mensagem para cada um deles. Falei com eles sobre o facto dos professores lhes baterem e eles acham que é tão natural... Quando lhes disse que era ilegal no Quénia os professores baterem nos alunos eles até se riram e perguntaram-me "então como é suposto sermos castigados?"... É este tipo de mentalidade que atrasa um país com tanto potencial como este. Estes miúdos, cheios de sonhos e ambições que têm os próprios professores como obstáculo quando deviam ser os principais motivadores.
Depois chamei o Victor a parte, disse-lhe que sabia que tinha dificuldades financeiras e que, por isso, se continuasse a trabalhar muito e esforçar-se lhe ia pagar o secundário. Não tenho palavras para descrever aquele sorriso, genuíno, feliz, humilde, de lágrimas nos olhos. Nunca me vou esquecer daquela expressão.
A hora da despedida foi super difícil, sempre que penso no assunto apetece-me chorar. Aquelas crianças são a minha felicidade neste momento e não sei se me sinto preparada para deixar isto tudo para trás. Sei que não tenho escolha, mas não me sinto preparada de todo.
Entretanto a nossa brazuca Luziane deixou-nos também, fico feliz por ser a próxima a ir assim também só me custo mais uma vez, a mais difícil, mas só mais uma vez.
Sábado fomos sair para a grande despedida, foi super divertido, domingo fomos almoçar juntos e basicamente tem sido isto,
Estou emocionalmente esgotada, não consigo acreditar que daqui a um dia vou estar de volta a Portugal. Não me entendam mal, tenho saudades de casa, mas isto soube-me a pouco...

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Day 43

Hoje era para ficar em casa a descansar mas felizmente tomei a decisão de ir a outro projeto por isso fui a favela de Mathare e foi uma sensação engraçada porque pela primeira vez senti que entrei mesmo numa favela. A favela onde eu trabalho é mesmo boa relativamente a esta e sei que ainda há piores.
Antes de ir a favela fomos comprar umas coisas para os meninos e depois fomos para a favela. Demoramos imenso tempo a lá chegar, realmente eu não tenho metade do trabalho que eles têm todos os dias para chegar a favela. Mal cheguei lá estive aquela arrepio que tive no meu primeiro dia, aquele sentimento de "ok, isto sim é uma favela": casas feitas de lata, lixo em todo o lado, sentia-se literalmente a pobreza que lá se vive.




Quando cheguei à escola os miúdos estavam super alegres, aquela energia que conquista qualquer pessoa, ninguém fica indiferente. A escola é minúscula, uma sala de aulas tem centenas de alunos, sem luz, os professores batem-lhes (literalmente, apanhei uma a bater num dos miúdos mas parou quando me viu e agiu como se tivesse minimamente preocupada) mas os miúdos eram tão incríveis.


Entretanto estive a conviver com os miúdos e eu sei que é super lamechas mas estes miúdos só precisam de amor. Eles estavam genuinamente tão feliz só por estar ali comigo, davam-me as mãos, abraçavam-me e são todos tão transparentes no que diz respeito aos sentimentos deles que a felicidade estava estampada naquelas carinhas maravilhosas.
Depois eles estiveram a distribuir cadernos aos miúdos todos e eles estavam tão agradecidos, tão genuinamente agradecidos... Também ofereceram uniformes aos miúdos orfãos porque muito não têm meios para os comprar. Foi só um dia incrível... Não tenho palavras suficientes para conseguir exprimir a minha felicidade quando "trabalho" com eles.
Acho mesmo que o que vou ter mais saudades é daquela sensação de acordar de manhã, cansada mas ansiosa por ir trabalhar e ir fazer algo que realmente me faz feliz, é uma sensação que desconhecia até agora... Não quero deixar isto, este sítios, estas crianças, estas pessoas, esta sensação, não quero mesmo, mas infelizmente já falta mesmo muito pouco...














quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Day 41 and 42

Peço imensa desculpa estar a falhar com as postagens mas ando tão cansada que quando chego ao fim do dia só quero dormir.
Esta contagem decrescente está a começar a intensificar-se... Não sei se estou contente ou triste por isto estar a acabar: por um lado tenho saudades de casa, de Portugal, principalmente da família e dos amigos, e está aí um Paredes de Coura à porta para o qual estou mesmo ansiosa. Mas por outro lado, já criei algumas raízes aqui, as pessoas, as crianças, esta rotina de ir todos os dias fazer algo que me dá mesmo gosto fazer (não aquela rotina aborrecida de que toda a gente se cansa facilmente e de que está farta), algo que me apaixona com pessoas que me apaixonam, não há sensação comparável, não que tenha sentido até agora na minha vida pelo menos. Deixar isto para trás vai ser não só difícil mas estranho, deixar esta vida, porque juro que aqui, a fazer isto, sou genuinamente feliz!
Ontem fui para a escola e estive a passar tempo com os miúdos sendo que as aulas já acabaram estive só a fazer um jogos com eles, nada demais, mas é sempre melhor que nada. 
Hoje fui para lá e estive com eles algum tempo, a conversar... Estavam imensos pais porque era dia de ir buscar as notas dos exames e alguns deles até se safaram bem. Isto é super importante principalmente para os que vão para o secundário porque define a facilidade de acesso às escolas, principalmente a nível monetário porque se tiverem boas notas é mais fácil terem apoio financeiro.
Cada vez penso mais em pagar o secundário ao Victor... Não sei se lembram de eu falar dele mas é o miúdo que me levou a visitar a casa dele. Teve um resultado de 260/500 (que não é mau) mas mesmo assim vai precisar de dinheiro para pagar o secundário e seria um privilégio para mim poder oferecer-lhe isso porque merece. O miúdo é tão trabalhador, educado, esforçado e ambicioso que só dá mesmo vontade de o ajudar e sei que o faria tão mas tão feliz que vale a pena só por isso.
Hoje na conversa também falei com um miúdo que muito naturalmente me diz "eu não tenho pais, moro com os meus tios" e fiquei boquiaberta. A naturalidade e simplicidade com que ele disse aquilo partiu-me o coração, como se fosse algo tão natural e normal, mas é o normal dele provavelmente, a realidade dele e a de muitos miúdos. Quando lhe disse que também perdi o meu pai a reação dele foi incomparável, como se tivesse pensado "engraçado, ela também tem problemas parecidos com os meus", senti que se identificou e que lhe abriu os olhos para o facto de haver pessoas, mesmo nós, mzungus, europeus, tão longe deles e tão bem financeiramente também nos deparamos com problemas assim...
Depois da escola vim para casa onde passei a tarde a descansar e fomos jantar a um restaurante ao qual já tinha ido com comida da Etiópia. Foi delicioso, barato, tudo que há de bom.
Deixo-vos com umas poucas fotos de hoje, porque em vez de tirar fotos estive mais a ensinar-lhes a tirar fotos que eles adoram...




terça-feira, 4 de agosto de 2015

Day 36 to 40 - Mombasa

Então na quarta-feira à noite fomos arrancamos para Mombasa, fomos 11 pessoas para lá. A viagem era supostamente de 8 horas mas acabou por ser de 12 horas porque a polícia corrupta cortou as estradas para tentar pedir dinheiro, então tivemos 3 horas parados na estrada a ver o sol nascer.
Quando finalmente chegamos a Mombasa eu estava exausta porque não consegui dormir nada no caminho, estava cheia de fome então paramos num restaurante para comer qualquer coisa.
O tempo em Mombasa estava tão quente, finalmente senti-me no verão. Andamos cerca de meia hora até apanhar o Ferry para o outro lado. No Ferry tiramos algumas fotos e pelos vistos era proibido então mais uma vez os seguranças tentaram fazer dinheiro à pala deste incidente. Do outro lado apanhamos um Matatu até Diani Beach, mais especificamente para o hostel, South Coast Backpackers (que recomendo imenso a qualquer pessoa que vá para aquela zona).
O Hostel era só incrível, o nosso quarto tinha uma arvore no meio, aquilo tinha piscina, cadeiras para apanhar sol, camas de rede, um bar ali ao pé, as pessoas eram muito simpáticas, conheci tantas pessoas incríveis nestes dias com histórias tão diferentes que saí de lá com ainda mais vontade de viajar e aventurar-me pelo mundo.
Nesse dia eu e a Mariana ficamos pela piscina porque precisava de descansar um bocado, estivemos na conversa com um rapaz americano com origens quenianas muito simpático (toda a gente falava com toda a gente, é algo que devíamos fazer mais porque é incrível ouvir algumas histórias).
No segundo dia fomos de manhã cedo fazer mergulho superficial, andamos nuns barquinhos até uma ilha onde se pode ver peixes mesmo lindos, andamos por lá a nadar, alimentar os peixes, encontramos imensas estrelas do mar, aquilo era tão paradisíaco, não sei como não há mais pessoas a falar e querer ir lá. Almoçamos num restaurante de marisco onde finalmente pude comer peixe e lulas e estivemos na conversa. Depois acabei por ir para a piscina porque a maré subiu e fez desaparecer o areal e também tinha de ir para casa para tirar as tranças (mil lágrimas, mas estavam a ficar tão feias por causa da água).
No terceiro dia fizemos um pouco de praia de manhã mas o tempo não estava grande coisa, acabamos por ir para o hotel e de tarde fomos ver o pôr-do-sol numa montanha com uma vista linda.
A noite lá também é porreira, muitas discotecas a beira do mar, podíamos dançar literalmente na água ou no areal...
Adorei Mombasa, muito honestamente, já merecia umas férias de VERÃO, nem que tivessem sido só estes poucos dias. Na segunda regressamos para voltar ao trabalho, com uma casa mais vazia porque perdemos 5 pessoas mas agora vieram também mais 3 por isso andamos neste vai e vem de gente que também faz parte da experiência.
Deixo-vos com algumas fotos do pequeno paraíso...










segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Day 35 - Global Village

JAMBO EVERYONE!
Voltei agora de Mombasa e peço imensa desculpa pela ausência. Mas antes de ir para lá, tivemos um dia de partilha de cultura com as várias AIESEC's e é isso que vos trago hoje.
Então na quarta passei a manhã a preparar as coisas para Mombasa para de tarde poder ir a este evento. O objetivo era claro, partilhar as diferentes culturas mas principalmente, na minha opinião, conviver com os outros estagiários e com os membros da AIESEC.
Este dia correspondeu também à despedida da Susie, Krystal, Qiqi, Sabre e Laura. ou seja, foi um dia super emocional porque perdemos 5 pessoas cá de casa de uma só vez.
Durante o dia conheci muitas pessoas, finalmente encontrei a Kelly que também está cá mas através de uma AIESEC diferente, apresentamos o nosso país, brincamos, dançamos, comemos, foi incrível.
No fim chorei muito, as despedidas são só a pior coisa por aqui. Nunca gostei de despedidas, e aqui ainda parece mais difícil porque partilhei tanto com estas pessoas que acabaram por se tornar numa pequena família, e marcam-nos, mas melhor ainda é perceber que eu marquei pessoas também que é algo de que não se tem muita noção acho eu... Saber que tive um papel especial nesta jornada para alguém é um sentimento um bocado novo para mim. Sempre dei valor às pessoas que me marcam mas nunca parei para pensar um bocadinho que também eu desempenhei esse papel para estas pessoas e isso deixa-me muito contente mesmo.
Depois conto a experiência de Mombasa mas para já é só isto... Ficam algumas fotos de quarta-feira para vocês.