Andamos cerca de 10/15 minutos quando finalmente entramos numa pequena porta na favela que dava para muitas casas (pequenas casas, muito pequenas). Subimos umas escadas e encontramos a mãe dele à porta. Fomos muito bem recebidos naquela humilde casa. A casa tinha eletricidade verdade (poucos miúdos têm, um de nós até comentou que este miúdo nem estava assim tão mal, infelizmente está mal, bastante mal nos padrões gerais, mas bem relativamente a outras crianças que estudam naquela escola). Perguntei a senhora se era possível ver o quarto do Victor, e ela gentilmente disse que sim. Mal eu sabia que o quarto do Victor (que provavelmente é metade ou um quarto do vosso quarto) é também o quarto do irmão, das duas irmãs, a cozinha e o lugar onde a mãe guarda algumas coisas como garrafões e outros itens...
Depois disto, sentamo-nos com ele e fizemos-lhes algumas perguntas, e acreditem que o esforço para não caírem lágrimas foi enorme. O Victor, na sala de aula, é um miúdo exemplar: provavelmente um dos mais educados, tímido mas sorridente, uma boa atitude, adora ler e aprender e nota-se que valoriza aquelas aulas e toda a educação em geral. Durante aquela conversa, ele começou por nos contar o seu dia normal: acorda às 4:00 da manhã, reza e depois lê antes de ir para a escola às 7:30. Passa o dia todo na escola e quando volta lê mais, porque gosta muito de ler.
Ele contou-nos outras coisas, que terão a oportunidade de ler brevemente sendo que vamos partilhar isto durante a angariação de fundos para a construção de uma biblioteca na escola e a compra de algum material se for possível, mas a parte que mais me tocou foi quando lhe perguntei "se pudesses pedir uma coisa, qual seria?". Ele respondeu "Dinheiro para poder pagar a escola secundária. O meu pai não tem dinheiro e provavelmente para o ano não vou poder continuar na escola.". Estou a escrever isto completamente arrepiada ainda, porque vi naquele miúdo a vontade de estudar e aprender e crescer que não é comum atualmente, pelo menos não onde eu vivo. Os miúdos em Portugal, vêm a educação como uma obrigação, como um dever e não como um direito, e ali está um miúdo a dizer que o que mais quer é dinheiro para poder continuar a estudar.
Honestamente, neste momento, o que mais quero fazer ao voltar a Portugal é angariar dinheiro para conseguir pagar o secundário a este miúdo, tenho de começar a falar com pessoas daqui para saber como é que isso é concretizável e saber se tenho o apoio deles nisto de forma a que eles sigam a situação e controlem a aplicação do dinheiro.
Depois disto voltamos à escola para o deixar lá e voltamos para casa. A comida estava péssima, acreditem, mas depois de tudo o que vejo todos os dias já nem tenho coragem para me queixar, como e calo,
Passei a tarde em casa a tratar de pormenores para a angariação de fundo e a conviver um bocado com o pessoal, jogamos uno, conversamos e agora deitei-me que estou super cansada e com uma dor de garganta péssima. Aposto que é da poluição estúpida que há neste país. O próprio ar cheira a poluição, o simples facto de andar na rua faz-nos sentir "sujos". Esperava muito mais a nível de limpeza aqui juro, mas é mesmo muito mau.
Enfim, vou deitar-me e deixar-vos, mais uma vez, com algumas fotos destas crianças incríveis.
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