Hoje fui para o projeto só com a Laura. Nunca tinha ido para escola de forma independente nem sabia se sabia bem o caminho mas conseguimos ir e voltar sem problemas por isso fiquei super orgulhosa de mim.
A ida para à escola encontramos um dos miúdos que vai às nossas aulas, o Anthon, e perguntei-lhe porque não estava na escola ao que ele responde "não paguei a fee e se for para a escola os professores batem-me"... O meu coração parou simplesmente. A escola primária, nas escolas públicas, é supostamente de graça. Os professores é que têm a frieza de pedir dinheiro (ou seja, recebem do governo e anda querem mais) e batem nos miúdos que não pagarem, não os deixando ir à escola. Quem é que consegue olhar para miúdos, pobres, e ter a lata de lhes pedir dinheiro para o seu próprio benefício? QUEM? Não me cabe na cabeça juro. Fui então falar com um dos professores voluntários do projeto que disse que não podia fazer nada, faz-me sentir tão impotente face a algumas situações que nem consigo descrever. O pior é que toda à gente sabe o que se passa mas ninguém faz nada para mudar isto.
Durante as aulas os miúdos estiveram a escrever-nos cartas de despedidas. Não, não me vou já embora, mas esta semana começam os exames deles e o projeto acaba sendo que se calhar vou ter mudar para outra escola. Estou a tentar tudo para não o fazer porque a verdade é que adoro estes miúdos e sinto que ainda os posso ajudar em muito, por isso vou tentar falar com a escola para ir dar aulas aos que têm mais dificuldades em privado.
Não chorei com muito esforço, uma miúda disse-me quase a chorar "não consigo imaginar esta escola sem ti", outra pediu-me para a levar comigo, outra diz que quando me casar quer ir ao meu casamento... Estes miúdos fazem-me tão, mas tão feliz que não são suficientes as palavras para o descrever. Eu sei que é muito giro as fotos que tiro, com eles todos animados e sorridentes, mas são sorrisos que escondem muita dificuldade. A maioria deles moram em favelas, só com o pai a trabalhar a ganhar pouco para sustentar 5 ou 6 filhos na escola. Só têm acesso a bolsas para o secundário se tiverem média para tal nos exames se não têm de pagar cerca de 4500 euros para conseguirem ter o secundário. É mais do que o que eu pago em propinas numa licenciatura e este é o valor médio sendo que há escolas melhores e mais caras e outras mais baratas mas de pouca qualidade. Olhando para estes miúdos cheios de vontade de viver, e aprender, cheios de sonhos e esperanças faz-me mesmo pensar na sorte que tenho por ter uma vida tão privilegiada. Um direito tão básico como educação, ou pegar num livro e conseguir ler não é garantido em todo lado, e sei que se toda gente no mundo parasse para ver o que acontece no resto do mundo e partilhasse um pouco desse privilégio milhares de crianças poderiam ter acesso a algo tão básico como o ensino secundário.
Depois das aulas estivemos ainda a brincar um bocado com os miúdos e acabamos por ir embora. À ida para apanhar o Matatu a Laura foi atacada por um peru e foi só a cena mais hilariante do século. Ela achava que conseguia comunicar com o peru e ele começou a correr atrás dela, tiveram de vir uns senhores prestáveis para a ajudar que eu não conseguia de tanto chorar a rir.
De tarde fomos à cidade para comprar lembranças para à família, amigos e para mim também e adorei porque era tudo super barato. Fomos jantar pizza (que hoje a comida era chapati e feijão, alguém me ajude que eu vou engordar de uma forma estúpida neste país) e fomos para casa onde tive no chill até agora com a minha Marianinha na varanda a ouvir música e conversar. Uma tuga em casa fazia-me tanta falta que é quase estúpido, é como ter um pedaço de casa neste país.
Foi um dia em cheio e cada vez mais gosto de estar aqui, tenho saudades de casa, mas fazia disto vida se pudesse... Ajudar alguém, ensinar alguém, criar oportunidades para alguém é só a sensação mais incrível que já tive em toda a minha vida. Hoje só me sinto grata. Grata por ter a vida que tenho e grata por poder estar aqui a ajudar quem precisa. Só grata...
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